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Resenha

O Fio que Aflora

Por: Paulo de Carvalho Primavera, 2026

Leila Alberti é catarinense, hábil em letras, mas faz da poética visual sua grande linguagem. Em O Fio que Aflora, a artista transforma o universo têxtil em campo de experimentação, deslocando práticas tradicionalmente associadas ao ambiente doméstico para uma dimensão inventiva, espacial e quase fabular. Crochês, bordados, costuras, cerzidos, tecidos e materiais recolhidos do cotidiano deixam de cumprir suas funções habituais para constituir jardins imaginários, nos quais o fazer manual se encontra com a pintura, a instalação e o objeto. Não se trata, portanto, de representar a flora, mas de reinventá-la a partir de uma linguagem construída pelo gesto, pela matéria e pela lembrança.

A artista incorpora à mística das fiadeiras inventos de mistério em uma tecelagem gerada entre a trama do desconhecido e a urdidura do familiar. Enquanto um descompassa a linha reta e se forma através do espaço, brotado das tramas em diferentes sensações e aludindo a rugosidade das árvores cascudas, a maciez das painas e os múltiplos rizomas de um reino botânico fantástico, o outro nasce justamente daquilo que reconhecemos. É o tapete de crochê que recepciona no alpendre, o bordado no enxoval, o caminho de mesa disposto sobre a mesa que antecede a refeição. Formas aparentemente banais, mas carregadas de uma história silenciosa, pela qual o fazer feminino atravessa gerações e transforma a casa em lar. É nesse território que o afeto assume uma dimensão fundamental na obra de Leila. Não como sentimentalismo, mas como força capaz de reorganizar a matéria e atribuir novos sentidos ao que parecia ordinário. A lembrança da mãe, da avó, da infância e dos gestos aprendidos pela convivência não aparece como ilustração de uma história pessoal; manifesta-se na própria constituição das obras. O que antes servia para cobrir, adornar, reparar ou proteger passa a produzir estranhamento. O doméstico é deslocado de sua função e se abre para uma teia fantástica de casca, pétala e casulo. Nesse processo, Leila não abandona a origem desses objetos: ela a tensiona, fazendo com que o familiar possa novamente nos surpreender.

Há, portanto, uma espécie de emancipação do fio. A linha já não precisa obedecer à geometria da toalha, a função do tapete ou a previsibilidade do bordado. Ela cresce, contorna, acumula, ocupa o espaço e ganha espessura. O que era plano torna-se corpo; o que era ornamento transforma-se em estrutura; aquilo que parecia delicado adquire uma presença quase orgânica. É nesse deslocamento que a artista encontra uma das características mais interessantes de sua produção: a capacidade de fazer com que a artesania deixe de ser compreendida apenas como técnica ou tradição e passe a operar como pensamento visual

As pinturas seguem caminho semelhante. Nelas, a captura do instante parece ocorrer por meio de uma vegetação em permanente transformação. As formas se contorcem entre raiz e broto, madureza e frescor, expansão e recolhimento. Não há propriamente uma paisagem reconhecível, mas uma espécie de organismo pictórico em formação. A profusão de verdes e formas vegetais encontra no tom rosa uma de suas manifestações mais particulares. Salpicado sobre o algodão, ora delicado, ora de densidade crepuscular, o rosa aproxima-se da buganvília que, matizada, parece orvalhar como cataratas sobre o espaço. A cor, aqui, não apenas descreve, ela cria atmosfera, temperatura e lembrança. Talvez seja justamente aí que o coletivo dessas obras encontre sua maior potência. Leila não procura simplesmente retornar à infância, nem reconstruir literalmente os jardins de outrora. Ela percorre mentalmente esse território e dele retira fragmentos para construir outra coisa. A infância aparece menos como passado do que como uma espécie de matéria subterrânea, ainda capaz de brotar no presente. Um fio, uma textura, uma cor, uma forma vegetal podem abrir essa passagem inesperada entre aquilo que fomos e aquilo que continuamos sendo.

Seu trabalho se constrói, assim, entre dois movimentos aparentemente opostos: o reconhecimento e o estranhamento. Reconhecemos o crochê, a toalha, o bordado, a flor, a vegetação; mas, diante deles, já não estamos exatamente no mesmo lugar. Algo foi deslocado. E é nesse pequeno deslocamento que a obra acontece. Leila Alberti parte de uma experiência profundamente familiar para construir uma linguagem que já não pertence exclusivamente à casa, à costura ou ao jardim. Pertence ao campo da arte. Em O Fio que Aflora, o fio não apenas une pontos, ele conecta tempos, espaços e experiências. A pintura não apenas registra formas, ela faz brotar atmosferas. E a artesania não aparece como nostalgia, mas como possibilidade de invenção. Entre a casa e o jardim, entre o gesto aprendido e a forma reinventada, Leila constrói uma geografia do sublime familiar, um lugar em que aquilo que julgávamos conhecer volta a nascer diante dos nossos olhos; é o lar aflorado.